A ternura da terra

                                        ***
ABELHA

Para alcançá-la, é preciso dar-lhe um nome
Línguas mortas e poeira do tempo em um caldeirão
Cunharei um nome feito de história e antigos ensinamentos 
Um nome feito de trabalho e fé

É preciso controlar seu mel, sua seiva
Saber seus desejos, épocas, cios, seus sinais, ancestrais
É preciso um nome de pia e um nome de família 
Cunharei um nome com fadiga e fé

Mas enfim não te alcanço
Não te alcançarei?
E se calado e imóvel, até transmudar-me em flor, eu fluir em cheiro meu pensamento?
Saberei quem tu és?
E se te der o mel dos meus sonhos e desfizer em pólen minhas idéias?
Saberei quem tu és?
E se verter em caos as palavras mortas? 
Saberei?

Talvez se eu aprender a bater asas e zumbir
                                                                        zumbir
                                                                                       zumbir
                                                                                                       e nada mais 

                                        ***

A menina sorridente, tão linda em sua infância, me diz:
– O amor mais belo é aquele entre o cachorro e seu dono!  
Ora, mas que louco é amar e sentir-se dono da coisa amada
E um pobre animal ali preso a uma coleira, castrado, comendo bolinhas artificiais
Só uma criança mesmo... 

                                        ***

Sim, amo os gatos e os cachorros 
Por isto não prendo nenhum
Também amo as árvores e toda erva pequena 
Por isto não podo suas folhas, nem arranco suas flores

Amo os bichos miúdos que andam sobre as plantas
Percevejos, cigarrinhas, besouros, abelhas
Qualquer deles, mesmo uns que têm lá seus venenos 
Amo a terra com suas minhocas, vermes, caramujos 
E os rios cheios de vidas, mesmo que neles se criem mosquitos enjoados

Amo também uma mulher, como já amei outras 
E por que a amo não quero podar suas flores, nem arrancar suas pétalas
Às vezes a vejo como o rio que flui cheio de vidas
E a amo com suas águas às vezes claras, às vezes turvas 
Ainda que nos rios sempre existam mosquitos enjoados 

                                        ***

                              Concreto muro
                              reto. Contudo
                              no verso a hera
                                        
                                        ***

                                        *** 

No tempo em que os bichos falavam
Chão rimava com folha, montanha rimava com céu, lua rimava com mar
E a poema jazia no fundo do rio, pulava no alto dos galhos
Folha rimava com sol, lua com noite, pétala com abelha 
E o poema cantava a céu aberto, no silvo das aves, à flor da terra  

Enfim, o homem deu-se a palavra
Ou, quem sabe, Deus soprou baixinho no ouvido daquele mudo ser:
 – Fala agora e pensa, risca teus sonhos em uma pedra 
Então, (aos ouvidos dos homens) os bichos se calaram para sempre  



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